Um texto estético?
Com Theo Wentz
"Negros Lutando" (1824), de Augustus Earle
Antes de avançar na leitura e nas elaborações de Freud sobre esse sentimento inquietante, pensei em ampliar a discussão sobre esse início do texto.
Chamei o Theo para contribuir com essa discussão, haja vista sua fluência na língua alemã, ele pôde ser nossa ponte linguageira no percurso de leitura desta edição bilíngue. Theo morou na Alemanha em sua infância e fez contribuições valiosas durante a leitura. A contribuição agora que nos retorna é de como foi para ele estar nessa hiância entre línguas e o que pôde elaborar a partir desse trabalho em grupo.
Surgiu também, durante as conversas, a dúvida se este seria um “texto clínico” do Freud. Uma dúvida que se precipita mais ou menos assim: onde que ele explica mesmo as coisas? Até achamos elaborações críticas e teóricas sobre uma possível divisão que enquadraria O Infamiliar como um “texto estético”. Mas que função teria uma divisão como essa? Theo desenvolve aqui seu pensamento sobre essa categorização não ser tão simples assim.
— Este é considerado um dos textos estéticos do Freud. Entre outros, mas segundo Loureiro, Freud se aproxima da estética em “O chiste e suas relações com o inconsciente”, “O Infamiliar” e “O mal-estar na civilização”. O que você acha dessa separação “estéticos” x “clínicos”?
THEO WENTZ — Compreendo essa separação enquanto uma ferramenta didática útil. A anatomia ensina muito por meio de sistemas e separações: sistema cardiovascular ou sistema neurológico central, sistemas muscular esquelético etc. Separações são estratégias para pesquisadores e estudantes de psicanálise, mas duvido muito que na época Freud tenha sentado na sua cadeira de escritório e decidido separar sua produção de forma tão clara. Me parece que essa separação pode ser um processo posterior que ele tenha tido sobre a própria obra e principalmente que os organizadores e comentadores ajudaram a fortalecer.
Sendo essa obra muito vasta, me parece que Freud não se limita a um único objeto de análise (segundo aqueles preceitos postos pelo objeto científico clássico), e uma vez que ele mesmo compreende que não seria possível construir o corpo teórico da psicanálise caso o tivesse limitado a um único objeto científico, ele parte para outro método. Claro que ele durante muito tempo tentou, podemos ler essa tentativa em muitos trechos, principalmente nos primeiros escritos freudianos.
E se quisermos muito circunscrever um objeto, novamente partindo daquelas separações artificiais didáticas, gosto de imaginar que Freud se dedicou a condição humana e nela ao que salva o humano de ser reduzido ao sujeito da “aufklärung”, já que esse, já em seu tempo, vazava por todos os lados.
Assim sendo, me agrada pensar que ele salvou as histéricas do seu tempo que clamavam por uma escuta da denúncia dessa “aufklärung”, mas porque não, deixou um aparato que salva a nós também hoje em dia do excesso de razão que, vira e mexe, quer capturar o corpo e o reduzir a um modelo, ora mecanicista, ora comportamental.
Mas voltando ao assunto, enquanto escola da filosofia, a estética se ocupa de assuntos que envolvem a nossa experiência com o sensível do mundo e como ele, por sua vez, nos afeta. Como uma imagem se produz enquanto belo em nós? Como os sons produzem ânimo ou calmaria? Como os gestos antes encantadores de uma moça como Olímpia, se tornam estranhos, mecânicos e grotescos? Ou como um visitante de infância na casa dos pais é contaminado por contos de ninar e se torna uma figura assombrosa na vida adulta? Trata-se aqui de toda uma curiosidade pelos estudos das formações dos afetos e das relações de trocas que tecemos uns com os outros ao nos relacionarmos e dizermos de nós.
Por isso mesmo, não creio na estética separada, tirando para essa função didática, do exercício clínico. Prefiro compreendê-la enquanto um dos elementos de pré-condição para o exercer da clínica, uma vez que, sem compreender essas relações de formação e troca dos afetos que colhemos e como eles constroem em nós paisagens de paixão e terror no mundo, pouco se pode intervir na clínica.
E aí vem o pulo do gato! Um estudo estético sobre um conceito como o Unheimlich, ou as vias de investigação para se compreender os afetos de estranheza que se constroem dentro daquilo que existencialmente me deveria ser tão familiar, como memórias de infância e velhos conhecidos de família, me parece uma feliz escolha, além de brilhante ideia de balizar o inconsciente por meio da literatura. Afinal, nada mais Unheimlich para o sujeito da aufklärung do que perceber que as sombras não estão à sua volta afastadas pelo seu poder de brilhar por meio da razão, mas antes, em sua gênese que tanto demanda e permite a construção dessa encomenda por clareza. Algo só pode ser infamiliar se, de alguma forma, for antes de mais nada familiar a nós mesmos e nada mais infamiliar que, não o objeto do desejo, mas os processos de se desejar as paisagens que circundam aquele objeto que desejamos.
— Freud ao abordar estética tem o cuidado de admitir que não é especialista no assunto. O que interessa a ele em suas investigações já aparece no que ele chama de estética, que seria “a doutrina das qualidades do nosso sentir” (“[die] Lehre von den Qualitäten unsereres Fühlens”). Diz sobre o Infamiliar (Unheimlich) ser um sentimento (Gefühlsqualität) e que as pessoas teriam diferentes graus de sensibilidade (Empfindlichkeit) para esse sentimento. Para passar unheimlich para o português, existem nuances dessa palavra em alemão que dificultam sua tradução. Há também outras nuances nessas outras palavras em alemão que poderiam nos ajudar a entender melhor o que seria esse “sentimento”?
THEO WENTZ — Creio que temos aqui mais uma pista do método que Freud usa e que, pessoalmente, muito me interessa em alguns psicanalistas. Essa posição de “não especialista no assunto”, mas antes de curioso ou explorador da temática, de estar à periferia dos outros saberes, pois me parece que essa capacidade de se posicionar dessa forma, enquanto um não especialista de um assunto, e ainda assim abordar um tema e com ele construir conexões, linhas de pensamento e saberes é uma das vias que possibilita, mais adiante, aquilo que em outros momentos vamos chamar de posição de suposto saber, ou a prática de deslocar o centro do conhecimento de tal maneira que o torne nossa periferia. E nesse processo, é claro, o mais interessante é que tudo de forma suposta pelo outro, em um belo jogo de espelhos.
Sendo assim, uma certa relação de abrir mão do argumento do cogito e, pelo contrário, abraçar o solo arenoso e pouco firme no qual se pisa e, ainda assim, continuar a caminhada em direção a construção de saberes, com as próprias pernas bambas, a meu ver, parece abrir um grande espaço para essa autoridade de tigre de papel do suposto saber do analista se consolidar. Claro que esse método serve bem aos analistas, as outras áreas talvez se beneficiem bem do argumento do cogito e necessitem por si construir os seus próprios métodos de vertigem, afinal até as crianças o fazem ao rodopiar com os olhos fechados. O que interessa é “o como” se aproximar dessa zona fronteiriça a própria especialidade que parece abrigar grandes preciosidades.
E com essa divagação um pouco tola, admito-a com prazer, talvez consiga transmitir um pouco do que penso sobre essa questão das nuances das palavras em alemão, que de fato é uma questão muito complexa e diante da qual compreendo minha baixa estatura, ou melhor, minha posição periférica de saber linguístico. Ainda assim, sendo tão periférico, posso logo permitir-me ser melhor afetado pela ordem das grandezas dos afetos que tais palavras e as relações de aproximação com suas traduções possibilitam.
E creio que a qualidade do “fühlen” a qual Freud se refere está muito distante de nós brasileiros, digo isso dos afetos que colho diante do “fühlen” em alemão e do “sentimento” em PT-BR. Podemos sim traduzir “fühlen” simplesmente por “sentimento” e o assunto estaria resolvido, mas aí reduziríamos a leitura da psicanálise a uma leitura protocolar de manual de instrução de torradeira. O legal está quando iniciamos as problemáticas que envolvem a transmissão de bastão do saber de uma palavra em alemão para uma palavra em português, inclusive os tradutores da presente edição da Autêntica fizeram um belíssimo trabalho na minha opinião.
E aqui recorro à jardinagem, outra área da qual sou periférico, mas aprecio. O nosso “sentir” (PT-BR) me parece de outra ordem, ou pelo menos assim eu o prefiro compreender, algo mais próximo da palavra “capoeira” em sua origem do Tupi-Guarani, enquanto mata rasteira que cresce em um campo antes desmatado. O campo aberto e “limpo” é o espaço do “sentir” das luzes, é o espaço do grileiro, do colonizador, o espaço dos pretensos jardins de Versalhes em solo brasileiro. É um sentir muito próximo da razão ou do cognitivo que pensa em escalas de sentimentos e planilhas mensuráveis. Basta lembrar dos processos constantes de captura do corpo por modelos mecanicistas.
Já esse “fühlen” está mais próximo dos bosques dos filósofos românticos alemães, lindos sem dúvida, todos deveriam ter a oportunidade de caminhar por eles pelo menos uma vez na vida, mas deixe eles para lá do outro lado do atlântico. O que temos aqui, enquanto sujeitos periféricos e colonizados é a capoeira, o abandono ao qual somos sujeitados, mas que ao mesmo tempo, é nossa maior grandeza, pois dela podem surgir novas ervas daninhas, novas matas, novos pensamentos, saberes e fazeres mais condizentes ao nosso solo ou inconsciente.
E sim, perde-se muito ao traduzir uma palavra ou outra, mas creio que essa perda não deveria ser tratada enquanto algo necessariamente ruim. Já somos em gênese um povo marcado pela subtração das nossas riquezas e privação do compartilhamento da riqueza alheia, não vejo porque tentar negar esse processo, já que nessa perda, nesse abandono do campo subjetivo em vias de se tornar capoeira, nessa devastação da imprecisão é que podemos estar próximos dos afetos que provavelmente povoavam Freud quando este admite que não era especialista em estética. Sem o pleno domínio do idioma alheio, e do francês no caso de Lacan, abre-se todo um novo campo de conexões possíveis, já que precisamos dar nós mesmos forma as nossas angústias de capoeira, que certamente são muito diferentes das angústias dos bosques alemães e mais distantes ainda dos jardins de Versalhes.
Assim, voltamos à questão da estética dos afetos. Importa mais como nós, enquanto não “heimisch” (familiares) daquele pensamento tornado periférico de nós, sentimos ao nos depararmos com isso de Unheimlich que existe nessa nova periferia construída pelas leituras daqueles textos estranhos, pois se compreendermos a posição da qual Freud mesmo era adepto, podemos fazer da nossa não especialidade do domínio do campo do idioma alemão uma zona de proximidade que nos tornaria Freud mais avizinhado que muitos pós freudianos o eram dele em sua época. Talvez esteja aí a graça do projeto de retorno a Freud empreendido por Lacan, muito mais uma questão de passar a partilhar uma semelhante posição no solo arenoso do campo da ética, do que propriamente revisar com rigor conceitos teóricos, para mim o humor de Lacan seria uma pista. Mas essa é outra difícil questão.



